quinta-feira, 8 de abril de 2010

Como treinar o seu Dragão - 3D


A experiência em 3D é algo diferente e bastante alardeada. Aqui quem fala é um cinéfilo que teve seu primeiro contato com o cinema 3D e foi uma sensação a mais de divertimento para assistir a um filme. Mas como um amigo me disse: o que conta não é a “emoção 3D”, mas o conteúdo do filme que está passando. E Como treinar o seu Dragão (2010) dá conta do recado, proporcionando divertimento 3D e emoção de uma animação de qualidade.

A história mostra a vida em uma vila cheia de destemidos vikings que sempre são atacados por dragões de diversos tipos, mas os guerreiros os recebem com normalidade e com o desejo de arrancar a cabeça de um desses répteis alados. Em meio a essa batalha contínua está o protagonista Soluço um jovem viking que, apesar de querer, não leva o menor jeito para o ramo de caçador de dragões. Ao tentar provar o seu valor acaba acertando um “Fúria da Noite”, um dos dragões mais perigosos segundo o manual viking, mas Soluço começa a criar um laço de amizade com o animal e com isso poderá mudar tudo o que os vikings sabem sobre dragões.

O roteiro de Dean DeBlois e Chris Sanders, baseado em história de Cressida Cowell é divertido, mas cai na mesmice da proposição acerca da relação entre um homem e um animal, tão vista em dezenas de animações. Se analisarmos o personagem Banguela, o dragão Fúria da Noite, podemos ver que ele possui trejeitos e expressões bastante parecidas com um personagem da Disney Stitch do desenho 2D Lilo & Stitch (2002). Por outro lado, a animação da DreamWorks acerta com um desfecho no mínimo realista e com um toque de ternura onde cria um laço maior entre Soluço e Banguela, algo que talvez a Disney não faria por achar cruel demais.



A animação é bem feita, com texturas e cores cada vez mais bonitas e bem traçadas. O problema do 3D entra, pois, muito que está em segundo plano fica desfocado, ou seja, perdemos metade do trabalho que a equipe da animação teve em criar um cenário belo e detalhado.

Por falar em 3D vale o aviso aos iniciantes nesse tipo de cinema, esqueçam os lugares onde vocês sentavam antigamente. Para viver bem a emoção de um filme assim, você deve ao menos sentar três fileiras antes da última, nada de ficar lá em cima. Já que a maioria dos filmes 3D serão dublados, não haverá perda de falas dos personagens. Assim você entrará no universo 3D com maior facilidade.

Associado com o cinema 3D Como Treinar o seu Dragão é uma ótima escolha para quem quiser testar esse tipo de exibição possuindo boas seqüências 3D e uma história que não desaponta.


Nota: 8,5

Rafael Sanzio

terça-feira, 16 de março de 2010

Onde Vivem os Monstros


O filme Onde Vivem os Monstros (2009) não é um filme para crianças, mas para entendê-las. O diretor Spike Jonze adaptou o livro de autoria de Maurice Sendak para um longa metragem cheio de ternura e melancolia.

A história mostra a vida de Max (Max Records) que vive com a mãe (Catherine Keener) a irmã. Max não é uma criança solitária, brinca com os amigos na escola e é cheio de imaginação. Mas possui as características de um garoto comum, cheio de mimos e com um lado carente perceptível. Seu egoísmo o leva a brigar com a família e fugir de casa. Sua viagem termina ao chegar a uma ilha desconhecida onde vivem os monstros. Max terá que usar de sua criatividade para viver com tais criaturas sem ser devorado.

Há momentos e momentos no filme deSpike Jonze. Durante a transição entre o mundo real e imaginário há diálogos aparentemente sem nexo dos monstros e cenas monótonas que definem que este é um filme contemplativo e não agitado para crianças. A fotografia confere cenas belíssimas como na seqüência onde Max vai conversar com Alexander (Paul Dano) dentro do forte ou quando ele volta com KW (Alice Parkinson) e vê o forte ao longe. A música sob a tutela de Carter Burwell e Karen Orzolek ajuda a compor o clima do filme, infantil, terno e bonita.

Um ponto interessante do filme é o desmembramento de Max, ou seja, cada monstro representa uma personalidade do garoto. Destaque para as vozes de Catherine O'Hara interpretando o monstro Judith que representa a ira e malícia e a de Alice Parkinson que representa o lado materno que Max tem de sua mãe no coração. As expressões dos monstros estão bem feitas e optando por maquiagem e fantasias ao invés de computação gráfica, deixa o filme mais humano (mesmo com monstros), mais palpável.

Apesar da fofura dos monstros, o diretor cria tensões nas cenas onde nos mostra que o perigo é real para Max. Desde o momento que o garoto chega a ilha, qualquer interação com os monstros nos fazem pelo garoto. Desde um simples “montinho” ou acesso de raiva por parte dos monstros. As criaturas são como crianças impetuosas que não sabem o que fazem ou não conseguem controlar seus impulsos destrutivos. Os ataques de Carol (James Gandolfini) são idênticos aos de Max com raiva da irm ou da mãe.

A historia demonstra o crescimento de Max e sua redenção ao notar que a mãe tem papel importante na educação dos filhos. É um auto-descobrimento bonito de se ver e recheado de ternura e ao mesmo tempo de tristeza ao perceber que a infância é cheia de perigos psicológicos para uma criança que não tenha o apoio da família e nem entende a importância que ela tem.


Nota: 8


Rafael Sanzio

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Blade Runner - O Caçador de Andróides: Versão do Diretor


Blade Runner pode entrar no exemplo que um filme pode ser ao mesmo tempo clássico e cinema artístico. Utilizo essas duas expressões da mesma forma que João Batista de Brito em seu texto “Dois Modelos de Cinema”, o filme de Ridley Scott passou por diversas versões, a primeira nos moldes Hollywoodianos, as demais buscavam a essência artística que o diretor queria imprimir em sua obra em 1982. O resultado desta versão do diretor será analisado aqui nos parágrafos seguintes.


A história se passa no ano de 2019, a tecnologia avançou, capacitando os seres humanos a viagens interplanetárias. Essas viagens ainda são perigosas, ocasionando no surgimento dos replicantes, seres criados geneticamente para parecerem humanos. Contudo, a revolta violenta dos replicantes provocou o surgimento da lei onde nenhum replicante pode pisar no planeta Terra, o descumprimento dessa lei acarreta seu extermínio. Rick Deckard (Harrison Ford) é um Caçador de Andróides, encarregado de procurar e matar essas réplicas humanas. Seus serviços são requisitados quando um grupo de replicantes avançados chega a terra e ameaçam a vida dos seus criadores.


O filme é baseado no livro de ficção científica de 1968: “Do Androides Dream of eletric sheep?” de Philip K. Dick. A história do filme envolve as questões de identidade, existência individual. A versão do diretor omite a narração over de Deckard, desenvolve o romance entre Deckard e Rachael (Sean Young) e altera o final. Com essas mudanças Ridley Scott torna o filme mais contemplativo, além de adicionar o alardeado mistério que envolve a verdadeira identidade do protagonista, seria ele um replicante?



Mas antes de abordar a questão Deckard, é interessante definir a diferença entre cinema clássico e artístico. Segundo Brito, o cinema clássico americano seria “comunicável, previsível e fechado” enquanto que o artístico seria o contrário. A primeira versão de Blade Runner foi submetida aos desejos dos produtores em transformá-la em uma leitura mais fácil para o público, acrescentando a voz over de Harrison Ford para explicar a trama e modificaram o final para um desfecho feliz. Com as modificações produzidas pelo diretor, há diversos momentos para reflexão do público para o que está sendo mostrado. Seu final aberto dá a chance ao espectador suas próprias interpretações quanto a identidade de Deckard. O filme também possui características de um neo-noir e apesar da retirada da voz over, permanece com os conceitos deste estilo.


Para esclarecer, o estilo neo-noir nada mais é do que uma modernização dos filmes noir da década de 40 e 50. No caso de Blade Runner há uma hiper-modernização, mesclando o noir com ficção científica. A trama cerca uma história de detetive, a locação é a Los Angeles futurista, personagens arquétipos como a femme-fatales (neste caso belas replicantes assassinas, que de uma bonequinha linda transforma-se numa bruxa acrobática mortal) e detetive durão solitário (característica do personagem de Harrison Ford). Além disso, a ambigüidade moral da trama, questão vista nos filmes noir, com os replicantes sendo utilizados como escravos sem ter o direito de aproveitar a vida de forma duradoura. Esta problemática é resolvida pelo personagem Gaff (Edward James Olmos) quando comenta sobre a morte iminente de Rachael ele resume a uma pergunta “Quem vive?” essa é a resposta depressiva do filme aos replicantes, para quê lutar para não morrer se ninguém é eterno?


A análise do conteúdo do filme se sobrepõe a estética do mesmo. Contudo, cabe abrir um espaço para o trabalho de Ridley Scott. A seqüência inicial demonstra uma estética musical da cidade, com a trilha sonora de Vangelis mesclando-se com a trilha sonora da cidade, com seus carros espaciais e explosões de fogo das torres. O filme é composto por um jazz modernizado, o que absorve ainda mais o estilo dos filmes noir, principalmente dos encontros amorosos do protagonista com seu interesse romântico. A luz possui características interessantes, em ambientes externos impera a luz de neon, enquanto que nos internos a maioria das cenas são compostas por um forte foco de luz advindo das janelas. A cor azul proveniente dessas luzes provoca tanto a sensação de melancolia deste futuro em particular quanto a sensação de artificialismo dos replicantes.


Ridley Scott insere planos relâmpagos (ou como os roteiristas chamam “insert”) em uma cena em particular. Estes inserts caracterizam-se também por flashfowards, é a cena anterior ao encontro dos replicantes com o cientista dos olhos, na cena o personagem de Rutger Hauer comenta sobre o “tempo” e nesse momento insere-se a cena em close da mão do replicante Roy e depois do close no rosto suado de Roy com uma estranha mão no ombro. As duas cenas aparecem mais à frente, a primeira no combate final entre Deckard e Roy e a segunda quando Roy encontra Tyrell. Estes planos relâmpagos podem deixar os desatentos confusos, procurando o dono da mão no ombro de Roy, esta incomunicabilidade é uma das características descritas por Brito sobre o cinema artístico.



O diretor erra na seqüência de perseguição da replicante, com o uso errado de planos podemos perceber nitidamente que é uma dublê ao atravessar as vitrines das lojas. Contudo, em 2007, Ridley Scott produz mais uma versão de Blade Runner, agora, inserindo digitalmente o rosto da atriz nesta seqüência em particular, tentando assim apagar os erros do passado.


O trabalho dos atores nesta produção não atrapalha seu desenvolvimento. Harrison Ford encarna o detetive renegado sem passado, Sean Young com sua interpretação robotizada ironiza a necessidade do teste para mostrá-la como replicante, Rutger Hauer impregna carisma ao replicante líder Roy. Um destaque que eu acrescento é para a atuação de Edward James Olmos para o personagem Gaff, o que seria ele? Um andróide? Um homem com várias partes cibernéticas? Seu apreço por origamis é uma das chaves para a revelação da identidade replicante de Deckard. A medida que o filme chega ao fim, as atuações dos replicantes ficam cada vez mais bizarras, talvez uma analogia ao mal-funcionamento de uma máquina quando esta chega aos seus últimos dias.


Por fim, antes de encerrarmos esta análise, cabe um parágrafo ao mistério e pistas sobre a identidade replicante de Deckard. Vamos começar pelos menos óbvios, os olhos de quase todos os replicantes do filme adquirem um tom dourado em pelo menos uma cena (com exceção dos dois não principais), nenhum humano possui essa característica, na cena após Rachael salvar a vida de Deckard o detetive apresenta essa coloração e para provar que isso não é uma mera coincidência, os olhos da coruja geneticamente criada também brilham em um close na casa de Tyrell. A casa de Deckard não apresenta nenhum detalhe de sua vida passada, o personagem possui fotos antigas demais para definir que são realmente dele. Na batalha final, porque Roy salvaria a vida de Deckard? E porque ele questiona sobre “viver com medo”, se Deckard soubesse de seu prazo de validade não teria medo da morte? Mas é Gaff que introduz as principais pistas, a primeira é uma frase ambígua dita na cobertura do prédio “Fez um trabalho digno de um homem” e a outra pista é a mais significativa, a característica principal dos novos replicantes são as implantações de memórias, ao final Deckard encontra em sua porta um origami de unicórnio, como Gaff saberia de um sonho que o detetive não contara a ninguém?


Como podem ver Blade Runner – O Caçador de Andróides: Versão do Diretor tem sua força principal em seu conteúdo, na história e implicações existenciais que ela invoca. Além da própria sub-trama oferecida ao espectador sobre o mistério de Deckard. Ridley Scott destaca-se na condução do filme e na escolha de tornar o longa-metragem em um filme artístico. Apesar da visão desiludida que o filme tem do mundo, diferente dos seus replicantes, Blade Runner perdura até hoje.



Nota: 8



Rafael Sanzio

domingo, 17 de janeiro de 2010

Avatar


Após anos James Cameron surge com sua obra-prima tecnológica. Avatar (2009) possui um roteiro simples, com a jornada do herói bem definida, destacando-se mais para os seus tão alardeados efeitos especiais, que tinham motivos para o alarde. Com imagens belíssimas, Avatar surge como o melhor filme de ficção científica de 2009 (sim, é melhor que Star Trek).

O ano é de 2154, a humanidade explora um planeta chamado Pandora, suas intenções são para com o minério chamado unobtainium que apenas um 1kg vale 20 bilhões de dólares. Selfridge (Giovanni Ribisi) é o chefe da iniciativa exploratória e quer a qualquer custo encontrar a maior quantidade desse minério. O problema são os seres nativos do planeta, chamados Na’vi. Para resolver a situação diplomaticamente, os cientistas humanos misturam DNA humano com os dos nativos criando seres artificiais que podem ser “pilotados” por humanos através de conexões cerebrais. Jake Sully ( Sam Worthington) chega a base para controlar um desses seres artificiais, intitulados de avatares, Jake é o primeiro fuzileiro a controlar um avatar, chamando a atenção do Coronel Quaritch (Stephen Lang). Entre os Na’vi, Jake deve escolher entre servir a humanidade ou ajudar os alienígenas.

A história remonta a própria história da humanidade onde os países “civilizados” apropriam-se de “novas” terras e começam o processo exploratório e de exterminação cultural. Podemos fazer associação aos índios, a colonização da África e demais marcos da história onde potências dominam países ou continentes tidos como selvagens. Há espaço também para referências ao imperialismo norte-americano. O roteiro é bastante simples em uma primeira análise, há a jornada do herói, que recebe o chamado, sofre momentaneamente para aceitar sua verdadeira missão, há os mentores que aparecem na jornada para ensinar o caminho ao herói e também existem os aliados que estão destinados à morte.

O que chama atenção e que na realidade é o chamariz do filme são seus efeitos especiais. Avatar possui uma qualidade técnica até então nunca vista. Os humanos são adicionados aos ambientes gráficos de forma quase impecável, com uma pequena exceção acerca daqueles montados nos robôs de combate, mas as demais cenas colocam no chão qualquer filme produzido até agora, como King Kong (2005), Senhor dos Anéis (2001, 2002, 2003), Distrito 9 (2009). Não é coincidência ter citado filmes com a participação de Peter Jackson, o diretor da série Senhor dos Anéis é um dos diretores que trabalha para chegar ao limite da tecnologia dos filmes atuais. Em Avatar podemos ver as expressões dos atores nos Na’vi, além de ter a sensação daquelas criaturas serem reais. Até mesmo em cenas que supostamente são todas feitas em computação gráfica a textura produz uma fantástica sensação de realidade. E imaginar este filme em 3-D é um acréscimo a escala técnica desta super-produção.

A direção de James Cameron preza pela sensação do real. A maioria dos planos iniciais são com câmera na mão, com direito a enquadramentos caóticos sujeitos a mudanças bruscas de plano. Tudo isso é para evitar o artificialismo das cenas se utilizassem planos perfeitos nas seqüências em CGI. James Cameron utiliza-se de muita câmera lenta, ou para dar detalhes de uma cena de combate como para dar ênfase ao estado catatônico de um personagem em uma cena dramática. A trilha sonora também serve para reforçar a semelhança dos Na’vi com a cultura africana, mas a trilha também tem pontos negativos, principalmente nos momentos de reviravolta nas batalhas utilizando fanfarras que chegam até ser infantis ao invés de épicas, como na seqüência onde a batalha muda de vencedor quando o planeta junta-se a guerra.

Sam Worthington demonstra que será o ator da vez em filmes de ação com Exterminador do Futuro – A Salvação (2009) e o remake de Fúria de Titãs em seu currículo, mas com Avatar ele embarca também em um desenvolvimento romântico interacial. Há uma distinta diferença interpretativa entre os Na’vi artificiais e os nativos. É de se imaginar a atriz Zöe Saldana na cabine de dublagem rugindo e ameaçando com os dentes arreganhados tamanha a perfeição de transmissão de expressão que o filme proporciona. Já o ator Stephen Lang dá ao Coronel Quaritch características de um militar texano, mais um bom exemplo para estampar a arrogância norte-americana.

Em 3-D Avatar é uma experiência única, em sua versão normal o filme é um ótimo exemplar de ficção científica e que agrada também aqueles que gostam de filmes com efeitos especiais extraordinários.


Nota: 9

Rafael Sanzio

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes - Recomendo!


Minha preocupação em assistir esse filme foi o receio de que o estilo do diretor Guy Ritchie (RocknRolla – A Grande Roubada; Snatch – Porcos e Diamantes) sobrepujasse a história que envolve Sherlock Holmes, além do medo provocado pelos trailers de que Robert Downey Jr. transformasse Holmes em um vitoriano Tony Stark. Mas meus medos foram espantados pela direção segura de Ritchie e pela atuação carismática de Robert Downey Jr.

Na trama, Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) chega ao fim de sua parceria com Watson (Jude Law) que está noivo. Contudo, sua última investigação juntos volta a ativa de forma inesperada, obrigando o relutante Watson a voltar suas atenções para o seu parceiro. Sherlock Holmes enfrentará os poderes sobrenaturais do Lorde Blackwood (Mark Strong) desafiando o famoso raciocínio lógico do detetive.

O roteiro do filme abre espaço para a pancadaria. Onde apenas havia deduções e investigações elaboradas, há um Holmes mais ágil e boxeador. Mas não são deixadas de lado suas famosas deduções, o companheirismo existente entre Watson e Holmes e depois de O Código Da Vince, Anjos e Demônios e O Símbolo Perdido, não é difícil se entreter com ordens secretas que contém seus próprios enigmas e mistérios. No filme há elementos para ser considerado um filme noir (ou neo-noir como chamam os filmes que retomam as características dos filmes de detetives dos anos 40), com sua fotografia cinzena, herói (aparentemente) decadente e com um belo exemplo de femme fatale.

A principio podemos considerar a escolha de Robert Downey Jr. para o papel de Holmes como um mero artifício para aproveitar-se da ascensão do astro, já que imaginar Sherlock Holmes é ver um homem austero, sério e não-baixinho. Contudo, pela própria visão empregada pelos roteiristas Michael Robert Johnson, Anthony Peckham e Simon Kinberg, este Holmes especificamente parece ter sido feito para o ator. O estado de decadência do detetive justifica a pessoa mirrada na tela, mas que detém extrema força e sagacidade no olhar quando precisa. A seqüência onde Holmes conhece Mary, noiva de Watson, é um dos momentos onde o ator mostra que seria capaz de interpretar a faceta séria e londrina do detetive.

Foi uma feliz amostra do diretor Guy Ritchie com o filme Sherlock Holmes, o diretor controlou seu próprio estilo para evitar exageros que acontecem em Snacth (2000), RocknRolla (2008), Jogos, Trapaças e dois canos fumegantes (1998), mas sem perder este estilo de vista. Para demonstrar a capacidade mental de Holmes, nada de letras brilhantes como Uma Mente Brilhante (2001), mas flashfowards mostrando o rápido raciocínio do detetive para situações dramáticas, essas seqüências são usadas nas cenas de luta, mas podemos concluir como o detetive trabalha quando investiga coisas que não socam.

O restante do elenco agüenta o ritmo do protagonista. Jude Law como Watson serve como contraponto para o comportamento de Holmes, talvez até mesmo como um verdadeiro Sherlock Holmes deveria ser. Rachel McAdams, que interpreta Adler, produz uma femme fatale que não exagera em suas cenas de luta para não tornar-se uma Rachel Weiz na séria A Múmia. Mark Strong como o vilão cumpre seu papel, atuando com um lado sombrio e megalomaníaco: um vilão básico.

Sherlock Holmes entra na lista de personagem inglês repaginado como o atual James Bond, mas diferente do agente que tenta imitar Jason Bourne, Holmes deixa a seriedade do foco principal, transforma-se em um dependente de casos e de exercícios da mente e provoca uma sensação de ver mais do detetive londrino. Funcionaria sem Robert Downey Jr.? Não seria tão divertido!

Nota: 9

Rafael Sanzio

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Crítica dos Clássicos: Janela Indiscreta

Hitchcock é considerado um dos grandes diretores de cinema e possui o título de mestre do suspense. Dirigiu filmes como Festim Diabólico (1948), Psicose (1960) e Pássaros (1963). Em Janela Indiscreta (1954) expõe o público ao vouyerismo já existente em todos aqueles que assistem a um filme, mas que com o uso da câmera subjetiva nos torna mais invasivos do que antes.

Na trama o fotógrafo profissional J.B. Jeffries (James Stewart) está em uma cadeira de rodas por causa de uma perna quebrada e é obrigado a ficar preso dentro do seu apartamento. Enquanto o tédio aumenta, surge a obsessão em passar o tempo bisbilhotando a vida de seus vizinhos através de sua janela. Quando começa a suspeitar que o vizinho vendedor possa ter matado a própria mulher, Jeffries conta com a ajuda de sua namorada Lisa (Grace Kelly) para desvendar esse mistério.

Podemos observar a proposta temática de Hitchcock sobre o “espetáculo da vida alheia” com a abertura inicial, com as cortinas das janelas abrindo-se como uma cortina de um teatro. O começo do filme nos coloca imediatamente no lugar de um bisbilhoteiro, com a câmera praticamente subjetiva (apesar de não estar no ponto de vista de ninguém) enquanto percorre pelo apartamento de Jeffries, olhando avidamente para as fotos do personagem, para ele mesmo e percorre o apartamento por inteiro onde descobrimos as causas de seu acidente e o seu modo de viver. Esta cena inicial é também uma das poucas cenas onde a focalização narrativa não está no protagonista.

A câmera subjetiva é o plano de câmera mais importante nessa obra. É ela que nos coloca sob a ótica do personagem principal, conferindo-nos a própria pele de um vouyer. Como um grande diretor que é Hitchcock não comete o erro de deixar apenas a visão da câmera subjetiva, ele sempre mostra a reação de “Jeff” a tudo que ele está vendo. Ou seja, há a chance para o público se identificar com o herói, não criando assim um distanciamento desnecessário que diminuiria a potência dramática do filme como aconteceu em A Dama do Lago (1938) de Robert Montgomery. É com a câmera subjetiva que testemunhamos outro ponto interessante no filme de Hitchcock: as sub-tramas perpetradas pelos vizinhos do personagem principal. Há a bailarina amadora, o casal recém-casado, a mulher solitária, o pianista, o casal com o cachorro, a velha artista plástica excêntrica e o vendedor suspeito com sua mulher enferma.

A trilha sonora é quase que completamente composta por músicas diegéticas, provenientes do piano do vizinho compositor ou de algum rádio ligado. Esse uso diegético do som profere ao filme uma verossimilhança com a realidade, tanto que o único momento que o som causa um impacto de irrealidade é na música não-diegética nos créditos iniciais, mas o mesmo está fazendo referência a abertura de um espetáculo.

Para a mentalidade cinematográfica atual graças a Hollywood, o filme pode ser considerado lento. Essa mesma perspectiva pode ser gerada pelo já desgastado uso do suspense “Hitchcockiano”, Janela Indiscreta como outros filmes do diretor já possuem remakes ou modernizações como o filme Paranóia (2007) com Shia LaBeouf no papel principal e o brasileiro O Outro Lado da Rua (2004) com Fernanda Montenegro.

Mas é necessário evidenciar a maestria com que Hitchcock trabalhava com o suspense e a surpresa, o diretor sabia diferenciar esse dois elementos da narrativa. A surpresa acontece quando o público é arrebatado por algo que não esperava que acontecesse, enquanto que o suspense é algo que o público conhece, mas que a personagem desconhece. Exemplo de surpresa nesse filme em particular é a seqüência em que todas as suspeitas pareciam infundadas e de repente um grito alerta para a morte inesperada do cachorro. O suspense bem explícito é a seqüência onde a personagem de Grace Kelly está dentro do apartamento do vizinho e apenas o público, juntamente com Jeff e sua enfermeira sabemos que o possível assassino chegou a casa. Hitchcock utiliza-se da paralepse quando mostra apenas para o público que o vendedor saiu de casa acompanhado de uma mulher, criando assim para nós a expectativa de qual vai ser a reação de Jeff ao descobrir esse novo elemento da trama.

Jimmy Stewart não possui os padrões de um galã tradicional, mesmo sendo, sua condição de impotência e gesso na perna não ajudaria em seu charme, mas sua condição de personagem comum facilita na identificação com o público. Já a atuação de Grace Kelly está bem mais “viva” do que em Disque M para Matar (1954) e Hitchcock nos confere uma cena em particular com um close no belo rosto da atriz. Os vizinhos praticamente utilizam-se de uma atuação teatralizada por causa da distância na câmera igualando-se com a própria distância de um palco de teatro, isso não ocorre nas cenas onde Jeffrie usa do binóculo ou tele-objetiva da câmera ou na seqüência da morte do cachorro na qual as personagens da bailarina e mulher solitária aparecem em primeiro plano.

Janela Indiscreta detêm muitos exemplos do estilo de direção de Hitchcock, a fotografia da seqüência onde Jeff fica finalmente próximo ao seu suspeito possui várias sombras em posições significativas. Como a sombra no rosto de Jeff, pois como era ele que invadia a privacidade dos outros ele tenta permanecer como personagem anônimo e a réstia de luz apenas nos olhos do assassino deixando-os mais penetrantes e ameaçadores.

O mestre do suspense não irá perder esse título, mas o constante uso de seus elementos narrativos na atualidade pode gerar o desgaste de suas obras. Mas não para aqueles que respeitam os clássicos e que sabem diferenciar os originais das cópias.


Nota: 9


Rafael Sanzio